Retrato de Émilie du Châtelet, pintura de Marianne Loir
Pintura: Marianne Loir, domínio público / Wikimedia Commons

metodologias pedagógicas

Vis viva na sala de aula: 's Gravesande, Du Châtelet e a energia cinética no EJA

Por Gilson Borges · Graduado em Física pela Universidade Federal de Uberlândia (2010). Professor de Física no EJA, atualmente no Centro Educacional do Lago Norte, em Brasília/DF. · 2026-09-26

Contei uma história de bolas de barro. Ninguém na turma questionou nada — até eu escrever um quadradinho pequeno depois do “v”.

Uma disputa de cinquenta anos, resolvida com argila

A aula era sobre energia cinética, na primeira etapa do EJA, no Centro Educacional Lago Norte, em Brasília/DF. Em vez de começar pela fórmula, comecei pela briga.

No início do século XVIII, físicos europeus discordavam sobre como medir a “força” de um corpo em movimento. Os seguidores de Newton e Descartes diziam que era proporcional à velocidade (mv). Os seguidores de Leibniz diziam que era proporcional ao quadrado da velocidade (mv²) — a chamada vis viva, “força viva”. A disputa ocupou os físicos europeus por cerca de cinquenta anos, dividida até por nacionalidade: ingleses e franceses ficavam com um lado, holandeses, alemães e italianos com o outro (Physics Today).

Quem resolveu isso experimentalmente foi um físico holandês, Willem ’s Gravesande. Por volta de 1722, ele deixou cair esferas de latão de alturas diferentes sobre um bloco de argila e mediu a profundidade das marcas deixadas. O resultado foi direto: quando a velocidade de impacto dobrava, a marca não ficava só duas vezes mais funda — ficava quatro vezes mais funda (Vis Viva, Wikipedia; Willem ’s Gravesande, Wikipédia). Dobrar a velocidade quadruplicava o efeito. Essa é a assinatura de uma relação com o quadrado — evidência experimental a favor de Leibniz.

Contei essa história antes de qualquer fórmula. Os dez alunos acompanharam com naturalidade, sem nenhuma pergunta — a relação entre altura, velocidade e profundidade de penetração fez sentido imediato para todos.

Uma francesa, os dados de um holandês, e o resto do quebra-cabeça

O experimento de ’s Gravesande não encerrou o debate sozinho — faltava alguém unir esse dado experimental à mecânica de Newton de forma sistemática. Foi o que Émilie du Châtelet fez em 1740, no seu livro Institutions de Physique: incorporou os resultados de ’s Gravesande e demonstrou que a força viva de uma massa em movimento é, de fato, proporcional ao quadrado da velocidade (Project Vox).

Vale ser preciso aqui, porque é fácil simplificar demais uma história de disputa científica: Du Châtelet estabeleceu a evidência de que vis viva ∝ v². Ela não fechou sozinha o debate todo. Isso veio três anos depois, com Jean d’Alembert, que em 1743 mostrou que a disputa era, em boa parte, uma “disputa de palavras”: tanto mv quanto mv² podiam ser conservados no mesmo sistema, porque medem efeitos diferentes de uma força — um relacionado ao tempo de sua ação, o outro ao deslocamento que ela produz (D’Alembert and the vis viva controversy). Hoje reconhecemos essas duas grandezas como impulso e trabalho — não rivais, complementares.

Contei essa parte também: como uma mulher, numa época em que cientistas mulheres não eram levadas a sério, pegou o dado de um físico holandês e ajudou a resolver uma briga que travava a física europeia havia décadas.

Onde a compreensão parou

A história funcionou como um degrau. Ela aproveita algo que já sabemos sobre como a mente humana processa informação: narrativas ativam simultaneamente áreas cerebrais de linguagem, emoção e memória, o que ajuda a fixar o aprendizado de forma mais profunda — não é força de expressão dizer que “prestamos atenção em histórias” (Storytelling na educação, UFU). E, pedagogicamente, contar a ciência como processo histórico — cheio de disputa, erro e correção — costuma funcionar melhor do que apresentá-la como produto pronto e fechado (SciELO).

Mas o degrau parou exatamente onde eu escrevi a fórmula. Ao formalizar a energia cinética com o termo v², dois dos dez alunos pararam e perguntaram o que aquele “ao quadrado” significava. Um disse lembrar vagamente de ter visto antes; o outro disse que nunca tinha visto.

Nenhum dos dois tinha demonstrado qualquer dificuldade minutos antes, entendendo o experimento da esfera de latão. O obstáculo não estava no fenômeno — estava na notação. E isso também não é uma peculiaridade desta turma: dificuldades com potenciação são documentadas desde o 6º ano do ensino fundamental e persistem até o ensino médio, muitas vezes porque o aluno tenta multiplicar a base pelo expoente em vez de entender o que a operação de fato representa.

O que uma boa história não substitui

A narrativa histórica fez o trabalho pesado de tornar o fenômeno físico compreensível e memorável — isso ficou claro no silêncio sem perguntas durante o relato do experimento. Mas ela não é um atalho para a matemática. Quando a barreira está na notação, é preciso parar e resolver a notação diretamente, não esperar que a boa história resolva por conta própria.

Esse é um padrão que já vejo se repetir: no EJA, o obstáculo raramente é a intuição física. É, quase sempre, um degrau abaixo — no símbolo que carrega o conceito.

Não é a única aposta possível para ensinar energia no EJA de forma concreta: outra abordagem publicada usa atividades experimentais de baixo custo com energia potencial elástica, fundamentada em Paulo Freire, para o mesmo tipo de turma (Da energia elástica à cinética: uma abordagem freiriana com atividades experimentais na EJA). O caminho aqui foi outro: não um experimento novo, e sim uma história de quase trezentos anos que os alunos já sabiam contar de volta — só faltava o símbolo.

Dado original

Turma da primeira etapa do EJA, Centro Educacional Lago Norte, Brasília/DF, 10 alunos, aula sobre energia cinética com contexto histórico da vis viva. Os 10 alunos entenderam com naturalidade e sem questionamentos o experimento de 's Gravesande (esfera caindo de alturas diferentes, penetrando mais fundo na argila conforme aumenta a velocidade). Ao passar do relato histórico para a equação, 2 dos 10 alunos questionaram especificamente o termo ao quadrado (v²) — um disse lembrar vagamente de já ter visto, o outro disse desconhecer. A compreensão do fenômeno físico narrado historicamente foi imediata; a dificuldade surgiu apenas na notação matemática, não no conceito físico.

Estudo de caso

Aula sobre energia cinética introduzida pelo debate histórico entre os seguidores de Leibniz (vis viva, mv²) e de Newton (mv), incluindo o experimento de 's Gravesande (esfera de latão caindo em argila, 1722) e a contribuição de Émilie du Châtelet (1740), que demonstrou a proporcionalidade da vis viva ao quadrado da velocidade a partir desses dados. Os 10 alunos acompanharam o relato sem questionamentos, entendendo a relação entre altura de queda, velocidade e profundidade de penetração. Ao formalizar isso na equação com o termo v², dois alunos questionaram o significado do quadrado na fórmula.

Resultado: Nenhum dos alunos demonstrou dificuldade em entender o experimento da esfera de latão. A dificuldade apareceu especificamente na tradução do fenômeno para a notação matemática (2 de 10 alunos questionaram o v²), confirmando um padrão já observado em outras aulas do professor: o obstáculo no EJA costuma estar na notação, não na intuição física.

Fontes

Sobre o autor

Professor de Física no EJA em Brasília/DF, também já lecionou reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil no curso híbrido do IESB.