
professor de física
Tomada sem espelho vira aula: ligação em paralelo × série no EJA
A caixa da tomada dupla da minha sala está sem o espelho de acabamento há semanas. Em vez de mandar consertar antes de dar aula, resolvi usar isso.
Turma de 3ª Etapa do 3º Segmento do EJA, disciplina de Física, Centro Educacional do Lago Norte, Brasília/DF. Vinte alunos matriculados, dez presentes naquele dia — número que reflete um padrão conhecido da modalidade: as matrículas na EJA caíram 20% entre 2019 e 2023 em todo o Brasil, e a baixa frequência é constante, não exceção (Jeduca).
Por que começar pela tomada, e não pelo quadro
Não expliquei nada antes. Apontei para a fiação exposta e perguntei: por que vocês acham que a instalação da sala é feita assim? Por que não dá pra ligar as tomadas em série, uma depois da outra?
Essa escolha não foi acidental. Partir do que o aluno já vive e já sabe — mesmo que de forma incompleta ou errada — é o ponto de partida que Paulo Freire defende em Pedagogia da Autonomia: ensinar não é depositar conteúdo em quem não sabe nada, é construir junto a partir do repertório que a pessoa já traz (Freire, 1996). No EJA, esse repertório é grande: são adultos que já mexeram em fiação, já tomaram choque, já trocaram um chuveiro.
E eles trouxeram isso para a resposta. Vários alunos contaram que já haviam levado choque ao mexer em instalação elétrica em casa. Um deles sabia, corretamente, que o fio terra existe por segurança — mas não sabia explicar como a instalação era feita para isso funcionar.
As hipóteses erradas — e por que elas fazem sentido
Quando perguntei sobre corrente elétrica, a resposta que veio foi “220 V”. É um erro comum e bem documentado: pesquisas em ensino de física no Brasil mostram que a confusão entre tensão e corrente é uma das concepções alternativas mais recorrentes entre estudantes, em qualquer nível de ensino (SciELO/RBEF) — não é uma falha exclusiva desta turma, é um obstáculo conceitual conhecido.
Um aluno foi além e conectou isso ao ar-condicionado da sala: “ele puxa muita energia, por isso deveria estar ligado em 220 V”. A intuição está parcialmente certa. A potência do aparelho é de fato alta — mas o motivo técnico de ligá-lo em 220 V não é a energia em si, é que, para uma mesma potência, uma tensão maior resulta em uma corrente elétrica menor (P = V × I), o que permite usar fios mais finos e reduz perdas por aquecimento. É uma correção fina que vale a pena fazer: o aluno não estava errado em achar que tem a ver com a “força” do aparelho, só precisava ajustar qual grandeza está em jogo.
A pergunta que mais surpreendeu a turma foi sobre a corrente mínima capaz de causar um choque perceptível. Os chutes foram altos — 50 A, 100 A. O valor real é muito menor: o limiar de percepção de uma corrente alternada de 50/60 Hz fica em torno de 1 miliampère (0,001 A), sentido como um leve formigamento por 95% das pessoas (Revista EM). A distância entre o chute e o valor real — de “dezenas de ampères” para “menos de um centésimo de ampère” — foi o que gerou a reação mais forte de espanto na sala.
Por que a instalação é em paralelo, e não em série
Com a fiação exposta, expliquei o motivo técnico: em uma ligação em paralelo, cada tomada recebe a mesma tensão, e uma tomada vazia ou um aparelho desligado não interrompe as demais. Em série, a tensão se divide entre os elementos do circuito, e a ausência de carga em um ponto abre o circuito inteiro (efectoLED). É por isso que a instalação residencial — e a da nossa sala — é sempre em paralelo.
Aproveitei para reforçar a função de cada fio: o fase leva a energia até o aparelho, o neutro fecha o circuito de volta, e o terra existe só para desviar fugas de corrente para o solo, protegendo quem toca no aparelho (Eletromp) — completando o que um dos alunos já sabia pela metade.
O que ficou da aula
Não medi resultado de aprendizagem de forma formal — não é esse tipo de registro. O que registrei foi engajamento: dos 10 alunos presentes, todos responderam em algum momento, e 5 participaram ativamente do início ao fim, formulando hipóteses e fazendo perguntas sem que eu precisasse insistir. Isso é consistente com o que a literatura de ensino já aponta sobre material concreto: ele só funciona quando o professor faz a mediação entre o objeto e o conceito, não pelo objeto sozinho.
O ponto não é que uma tomada sem espelho seja um recurso didático planejado — foi uma falha de manutenção que virei aula. O ponto é que o gatilho para uma boa pergunta em sala nem sempre precisa vir de um material preparado. Às vezes já está na parede.
Dado original
Turma de 3ª Etapa do 3º Segmento do EJA, 20 alunos matriculados, 10 presentes no dia. Dos 10, todos responderam em algum momento às perguntas feitas; 5 participaram ativamente durante toda a aula. Quando perguntados sobre corrente elétrica, a resposta recorrente foi '220 V' — confundindo o conceito com tensão. Um aluno relacionou o consumo do ar-condicionado da sala à tensão de 220 V ('ele puxa muita energia, por isso deveria estar em 220 V'). Perguntados sobre a corrente mínima capaz de causar choque perceptível, os alunos chutaram valores como 50 A e 100 A, e se surpreenderam ao saber que o valor real é da ordem de 1 a 5 miliampères.
Estudo de caso
A caixa da tomada dupla da sala estava sem o espelho de acabamento, deixando a fiação visível. A partir disso, os alunos foram questionados sobre por que a instalação elétrica da sala é feita daquela forma, e por que não poderia ser em série. Vários alunos relataram já ter tomado choque ao mexer em fiação em casa. Um aluno soube dizer, corretamente, que o fio terra existe por segurança, mas não sabia explicar como a instalação era feita. Nenhuma medição formal foi registrada; o resultado é de natureza qualitativa, descrito abaixo.
Resultado: De 10 alunos presentes, todos responderam em algum momento durante a atividade, e 5 participaram ativamente do início ao fim, formulando hipóteses e fazendo perguntas — engajamento visivelmente maior do que em aulas puramente expositivas sobre o mesmo conteúdo, na avaliação do professor.
Fontes
- https://www.efectoled.com/blog/pt/os-circuitos-eletricos-da-nossa-casa-sao-em-serie-ou-paralelos/ (acesso em 2026-09-24)
- https://eletromp.com.br/fase-neutro-e-terra-entenda-a-diferenca-e-a-importancia/ (acesso em 2026-09-24)
- https://www.arandanet.com.br/revista/em/materia/2017/06/23/seguranca_contra_choques.html (acesso em 2026-09-24)
- https://www.aldo.com.br/blog/voltagem-no-brasil (acesso em 2026-09-24)
- https://www.scielo.br/j/rbef/a/ZVFxLsZmrLRRSRvXjcFYHkN/?lang=pt (acesso em 2026-09-24)
- https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/54579/2/freire-pedagogia-da-autonomia.pdf (acesso em 2026-09-24)
- https://buscaativaescolar.org.br/noticia/pnad-educacao-8-7-milhoes-de-jovens-brasileiros-abandonaram-ou-nunca-frequentaram-a-escola (acesso em 2026-09-24)
Sobre o autor
Professor de Física no EJA em Brasília/DF, também já lecionou reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil no curso híbrido do IESB.