
metodologias pedagógicas
Da sensação ao conceito: montanha-russa e energia mecânica no EJA
Três alunos já tinham andado de montanha-russa. Os outros sete nunca tinham ido, mas quiseram saber de tudo assim mesmo.
A aula era sobre energia mecânica, na 1ª etapa do EJA, no Centro Educacional Lago Norte, em Brasília/DF. Em vez de começar pela equação, comecei perguntando: quem já andou de montanha-russa, e o que sentiu?
Uma pergunta que a turma toda respondeu, de um jeito ou de outro
Três alunos conheciam o brinquedo do Nicolândia, o parque tradicional de Brasília que tem montanha-russa desde os anos 1970. Relataram, sem hesitar: ansiedade na subida, uma sensação de estômago vazio no topo, medo na descida — “parece que vai bater” — e a sensação de não ter controle nenhum sobre o próprio corpo, sendo puxados pelo carrinho.
Os outros sete não ficaram de fora. Perguntaram aos colegas se tinha sido divertido, quiseram detalhes. A aula inteira começou com a turma engajada numa conversa sobre física antes mesmo de eu escrever qualquer coisa no quadro — o que reforça algo que já tinha visto em outras aulas: partir da vivência de alguns alunos costuma engajar até quem não viveu aquilo, não só quem viveu.
Cada sensação tem nome
A partir daí, comecei a traduzir. Na subida, o carrinho ganha altura e perde velocidade — energia cinética virando energia potencial. Na descida, o inverso: energia potencial virando cinética. É exatamente a física que explica o funcionamento de qualquer montanha-russa: a energia do carrinho é sempre a soma dessas duas — a potencial, pela altura, e a cinética, pela velocidade (Descomplica).
Apresentei as equações:
- Energia potencial gravitacional: E_p = m·g·h
- Energia cinética: E_c = ½·m·v²
- Energia mecânica: E_m = E_c + E_p
Sem atrito nem resistência do ar, a energia mecânica se conserva: ½·m·v₁² + m·g·h₁ = ½·m·v₂² + m·g·h₂. Na vida real, parte dela vira calor por atrito e resistência do ar — é por isso que a primeira subida de qualquer montanha-russa é sempre a mais alta: ela precisa armazenar energia potencial suficiente para compensar tudo o que vai se perder pelo caminho, ou o carrinho não completaria o percurso (National Geographic Portugal). É o mesmo motivo pelo qual os freios no final da pista funcionam: eles dissipam o que sobrou de energia mecânica, até o carrinho parar.
Foi aqui, nas equações, que a aula ficou mais difícil — não no fenômeno, na notação. Um padrão que já reconheço de outras turmas.
Por que o “estômago vazio” é real, não só uma expressão
Vale a pena parar num detalhe: a sensação de estômago vazio no topo da descida não é força de expressão, tem explicação física precisa. Ali, a força normal do assento contra o corpo diminui bruscamente — é quase queda livre por um instante. Os órgãos internos, por inércia, atrasam em relação ao movimento do resto do corpo, e essa defasagem é o que sentimos como aquele “vazio” (busca agregada sobre física de montanhas-russas). O corpo dos alunos já tinha registrado esse fenômeno, anos antes de qualquer aula de física dar nome a ele.
Onde a intuição acertou — e uma distinção que vale fazer
O momento mais interessante da aula não veio de mim. Um aluno descreveu a sensação da base da montanha-russa como “compressão muito forte do corpo”. Perguntei: em que ponto do trilho isso acontece, e o que está acontecendo com a altura e a velocidade ali? Ele respondeu sozinho: “quando chega na base, perto do chão, muito rápido”.
Ele acertou o ponto exato — é ali, na base, que a energia cinética é máxima e a potencial é mínima, exatamente o que a equação de conservação de energia prevê.
Vale uma precisão, no entanto, para ser rigoroso: a velocidade máxima naquele ponto é explicada pela conversão de energia (Ep virando Ec) — mas a sensação de compressão em si tem uma origem um pouco diferente. Ela vem da força normal do assento, que ali precisa ser maior que o peso do corpo para sustentar a trajetória curva do trilho (força centrípeta) (Peso aparente, Wikipédia). Os dois efeitos — velocidade máxima e sensação de compressão — acontecem no mesmo lugar do percurso porque é ali que o trilho costuma ter maior curvatura e maior velocidade ao mesmo tempo. Mas são, tecnicamente, dois fenômenos físicos diferentes que só coincidem por causa do formato do trilho. Não invalida o raciocínio do aluno — ele chegou ao lugar certo, pelo caminho que a aula ensinou. Só mostra que há uma camada extra ali, para quem quiser ir mais fundo depois.
O que a sensação destrava, e o que ela não destrava sozinha
A vivência corporal — mesmo a de só três alunos — funcionou como ponte para o conceito físico com a turma inteira. Isso não é surpresa nova: partir do que o aluno já viveu, em vez de partir da fórmula pronta, é o tipo de escolha pedagógica que valoriza o repertório que a pessoa já traz para a sala. Mas a ponte parou na notação. A intuição sobre altura e velocidade estava lá, intacta, antes mesmo de eu escrever a primeira equação. O símbolo é que precisou de mais tempo.
Dado original
Turma da 1ª etapa do EJA, Centro Educacional Lago Norte, Brasília/DF, 10 alunos, aula sobre energia mecânica com o exemplo da montanha-russa. 3 dos 10 alunos (30%) relataram já ter andado em montanha-russa no parque Nicolândia (DF). Sensações relatadas: ansiedade na subida, sensação de estômago vazio no topo, medo na descida ('parece que vai bater'), e falta de controle sobre os próprios movimentos ao longo do percurso. Os 7 alunos sem experiência direta ficaram curiosos e interagiram, perguntando aos colegas se foi divertido. A dificuldade observada concentrou-se na introdução das equações (E_p, E_c e E_m), não na compreensão do fenômeno.
Estudo de caso
Aula sobre energia mecânica com a montanha-russa como exemplo central. Três alunos relataram a experiência no Nicolândia; os demais interagiram por curiosidade. O professor ligou cada sensação ao conceito físico (subida: Ec→Ep; descida: Ep→Ec) e apresentou as equações de energia potencial, cinética e mecânica, incluindo o efeito do atrito e da resistência do ar na dissipação de energia.
Resultado: Um aluno, ao descrever a sensação de 'compressão muito forte do corpo', foi questionado sobre em que ponto do trilho isso acontecia e concluiu sozinho: 'quando chega na base, perto do chão, muito rápido' — localizando corretamente o ponto de energia cinética máxima e potencial mínima. O obstáculo da aula se concentrou na notação das equações, não na intuição física sobre altura e velocidade, confirmando um padrão já observado em aulas anteriores do professor.
Fontes
- https://euamobrasilia.com.br/para-visitar/nicolandia-parque-urbano (acesso em 2026-09-28)
- https://descomplica.com.br/blog/uooow-como-fisica-pode-explicar-o-funcionamento-de-uma-montanha-russa/ (acesso em 2026-09-28)
- https://www.nationalgeographic.pt/ciencia/como-e-que-montanhas-russas-funcionam-segredo-esta-na-fisica_4350 (acesso em 2026-09-28)
- https://pt.wikipedia.org/wiki/Peso_aparente (acesso em 2026-09-28)
- https://repositorio.ufpe.br/bitstream/123456789/54579/2/freire-pedagogia-da-autonomia.pdf (acesso em 2026-09-28)
Sobre o autor
Professor de Física no EJA em Brasília/DF, com experiência também em reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil.