Céu nublado com chuva caindo sobre colinas
Foto: Michal Klajban / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

metodologias pedagógicas

"Chuva é obra de São Pedro?" — o que alunos do EJA já sabem sobre ciência antes da aula começar

Por Gilson Dutra Borges · Professor de Física no EJA no CED Lago Norte, em Brasília/DF. Já lecionou também no CESAS e no GISNO, além de reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil no curso híbrido do IESB. · 2026-09-29

“Obra de São Pedro.”

Foi a resposta de dois alunos, dita no tom de quem sabe que está brincando um pouco, à pergunta que a apostila do Tema 1 propõe para abrir a aula: o que é a chuva? Dos dez alunos presentes na turma de Etapa 1 do EJA, no CED Lago Norte, três se arriscaram a responder. Dois trouxeram São Pedro. Um foi direto ao ciclo da água.

O interessante não foi a piada. Foi o que veio junto com ela.

Os dois que “brincaram” sabiam a resposta certa

Os dois alunos que citaram São Pedro não pararam aí — na mesma fala, também demonstraram conhecer o ciclo da água. Não havia contradição sentida por eles entre dizer “é obra de São Pedro” e, na sequência, explicar evaporação e condensação. As duas explicações conviviam na mesma pessoa, sem conflito.

Isso não é uma peculiaridade da turma. A crença de São Pedro como “santo das chuvas” é uma construção da cultura popular brasileira com raiz específica: vem do Evangelho de Mateus, onde Jesus entrega a Pedro as chaves do reino dos céus — daí o apelido de “chaveiro do céu”. A tradição oral foi além: diz-se que, quando chove forte, ele está “lavando o céu”; o trovão seria o barulho dele arrastando móveis lá em cima. A crença se espalhou sobretudo em regiões agrícolas, onde a chuva é questão de sobrevivência da lavoura (CNN Brasil). No sincretismo religioso brasileiro, o santo ainda se mistura com Xangô, orixá da Umbanda associado à justiça.

Não citei nada disso na aula para corrigir os alunos. Citei porque a resposta deles não veio do nada — veio de uma tradição cultural real, com história, que faz sentido dentro dela mesma.

Por que não corrigi ninguém

Não tratei a resposta religiosa como erro a ser apagado. A apostila do Tema 1 traz um critério claro para separar explicação científica de explicação mítica: uma explicação é científica quando recorre só a elementos presentes na natureza, encadeados logicamente, sem depender de deuses ou espíritos. É, na prática, a formulação padrão do que a filosofia da ciência chama de naturalismo metodológico — o princípio mais aceito para demarcar o que conta como explicação científica (Crítica na Rede). Não é uma simplificação para didática de EJA. É o critério de verdade que cientistas profissionais também usam.

Apresentei esse critério como uma régua, não como um veredito sobre a fé de ninguém. A chuva, pelo critério científico, é parte do ciclo da água: evaporação, condensação, precipitação. Isso não anula “obra de São Pedro” como parte da cultura de alguém — só coloca as duas explicações em categorias diferentes, sem que uma precise destruir a outra.

Essa escolha tem respaldo: a literatura de ensino de ciências recomenda justamente isso — o conhecimento popular ajuda a consolidar o científico, e o científico eleva o nível do popular, numa relação de complemento, não de confronto (Instituto Claro). Numa turma adulta, com anos de vivência religiosa própria, tratar a fé como obstáculo a ser corrigido tende a fechar a porta antes de a explicação científica entrar. Ninguém na turma demonstrou desconforto. Todos mantiveram o interesse.

O modelo heliocêntrico, outro tópico do mesmo Tema 1, segue essa mesma lógica por baixo: é outro caso clássico de uma explicação sendo substituída por outra mais bem sustentada em evidência, não por autoridade. Nessa aula, não surgiu nenhuma dúvida sobre ele — mas ele está ali, no mesmo tema, por um motivo coerente.

As perguntas que a turma fez sozinha

Depois da explicação sobre o ciclo da água, vieram duas perguntas que eu não tinha planejado.

Um aluno quis saber como o gelo pode cair do céu como chuva — o granizo. Expliquei que, dentro de nuvens de tempestade, correntes de ar ascendentes carregam gotículas de água para altitudes onde a temperatura já está abaixo de zero; elas congelam, e o granizo cresce em camadas conforme sobe e desce dentro da nuvem antes de cair (Olhar Digital).

Outro perguntou por que algumas regiões do Brasil têm tão pouca chuva. Expliquei que o Brasil não tem, a rigor, regiões verdadeiramente áridas — existe o semiárido, concentrado no sertão nordestino e no norte de Minas Gerais, com chuva escassa e irregular. Os fatores por trás disso são vários ao mesmo tempo: o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical, que em certos meses intensifica o ar descendente sobre o Nordeste; o relevo da região; a influência dos oceanos e do El Niño; e uma evaporação alta combinada com solo raso. A pesquisa confirma a ordem de grandeza dessa explicação — fontes acadêmicas de climatologia citam entre 400 e 600 mm de chuva por ano no sertão nordestino, contra mais de 1.500 mm no litoral leste da mesma região (Revista Brasileira de Climatologia/UFPR) — é essa combinação de fatores, não “falta de chuva” genérica, que explica a vegetação adaptada da Caatinga.

As duas perguntas saíram do território da Física e entraram no da Geografia, e os próprios alunos perceberam isso — comentaram que já tinham visto esses temas antes, em outras aulas. Essa integração entre disciplinas no ensino de clima é reconhecida como boa prática pedagógica, ainda que pouco comum na prática escolar do dia a dia.

O que fica

O ponto de partida desta aula não foi corrigir uma “resposta errada”. Foi perceber que a resposta “errada” já continha a resposta certa dentro dela — os mesmos alunos que disseram “obra de São Pedro” sabiam o ciclo da água. O trabalho do professor, nesse caso, não foi ensinar do zero. Foi nomear, com clareza e sem confronto, uma distinção que os alunos já operavam na prática, mesmo sem ter as palavras para isso.

Dado original

Turma de Etapa 1 do EJA, 10 alunos presentes, CED Lago Norte, julho de 2026. Pergunta aplicada: 'o que é a chuva?'. Dos 10 presentes, 3 verbalizaram resposta: 2 deram explicação religiosa ('obra de São Pedro', em tom descontraído) e, ao mesmo tempo, demonstraram conhecer o ciclo da água; 1 aluno citou diretamente o ciclo da água. Os demais 7 não se manifestaram verbalmente. Nenhum dos que participaram demonstrou desconforto na classificação entre explicação mítica e científica. Dúvidas espontâneas: um aluno perguntou sobre o granizo, outro sobre por que algumas regiões do Brasil têm pouquíssima chuva.

Estudo de caso

Aula sobre o Tema 1 da apostila do EJA, aberta com a pergunta 'o que é a chuva?'. Dos 10 alunos presentes, 3 responderam — 2 com explicação religiosa e conhecimento simultâneo do ciclo da água, 1 apenas com o ciclo da água. A condução foi feita sem confronto entre fé e ciência. Duas dúvidas espontâneas surgiram: sobre a formação do granizo e sobre as regiões semiáridas do Brasil, ambas respondidas tecnicamente pelo professor.

Resultado: Nenhum dos alunos que participaram demonstrou desconforto na classificação entre explicação mítica e científica, e todos mantiveram o interesse. As duas dúvidas espontâneas (granizo e semiárido) levaram a turma a associar o tema com conteúdos de Geografia já vistos anteriormente — indicando conexão interdisciplinar percebida pelos próprios alunos, não só planejada pelo professor.

Fontes

Sobre o autor

Professor de Física no EJA em Brasília/DF, com experiência também em reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil.