
metodologias pedagógicas
"Chuva é obra de São Pedro?" — o que alunos do EJA já sabem sobre ciência antes da aula começar
“Obra de São Pedro.”
Foi a resposta de dois alunos, dita no tom de quem sabe que está brincando um pouco, à pergunta que a apostila do Tema 1 propõe para abrir a aula: o que é a chuva? Dos dez alunos presentes na turma de Etapa 1 do EJA, no CED Lago Norte, três se arriscaram a responder. Dois trouxeram São Pedro. Um foi direto ao ciclo da água.
O interessante não foi a piada. Foi o que veio junto com ela.
Os dois que “brincaram” sabiam a resposta certa
Os dois alunos que citaram São Pedro não pararam aí — na mesma fala, também demonstraram conhecer o ciclo da água. Não havia contradição sentida por eles entre dizer “é obra de São Pedro” e, na sequência, explicar evaporação e condensação. As duas explicações conviviam na mesma pessoa, sem conflito.
Isso não é uma peculiaridade da turma. A crença de São Pedro como “santo das chuvas” é uma construção da cultura popular brasileira com raiz específica: vem do Evangelho de Mateus, onde Jesus entrega a Pedro as chaves do reino dos céus — daí o apelido de “chaveiro do céu”. A tradição oral foi além: diz-se que, quando chove forte, ele está “lavando o céu”; o trovão seria o barulho dele arrastando móveis lá em cima. A crença se espalhou sobretudo em regiões agrícolas, onde a chuva é questão de sobrevivência da lavoura (CNN Brasil). No sincretismo religioso brasileiro, o santo ainda se mistura com Xangô, orixá da Umbanda associado à justiça.
Não citei nada disso na aula para corrigir os alunos. Citei porque a resposta deles não veio do nada — veio de uma tradição cultural real, com história, que faz sentido dentro dela mesma.
Por que não corrigi ninguém
Não tratei a resposta religiosa como erro a ser apagado. A apostila do Tema 1 traz um critério claro para separar explicação científica de explicação mítica: uma explicação é científica quando recorre só a elementos presentes na natureza, encadeados logicamente, sem depender de deuses ou espíritos. É, na prática, a formulação padrão do que a filosofia da ciência chama de naturalismo metodológico — o princípio mais aceito para demarcar o que conta como explicação científica (Crítica na Rede). Não é uma simplificação para didática de EJA. É o critério de verdade que cientistas profissionais também usam.
Apresentei esse critério como uma régua, não como um veredito sobre a fé de ninguém. A chuva, pelo critério científico, é parte do ciclo da água: evaporação, condensação, precipitação. Isso não anula “obra de São Pedro” como parte da cultura de alguém — só coloca as duas explicações em categorias diferentes, sem que uma precise destruir a outra.
Essa escolha tem respaldo: a literatura de ensino de ciências recomenda justamente isso — o conhecimento popular ajuda a consolidar o científico, e o científico eleva o nível do popular, numa relação de complemento, não de confronto (Instituto Claro). Numa turma adulta, com anos de vivência religiosa própria, tratar a fé como obstáculo a ser corrigido tende a fechar a porta antes de a explicação científica entrar. Ninguém na turma demonstrou desconforto. Todos mantiveram o interesse.
O modelo heliocêntrico, outro tópico do mesmo Tema 1, segue essa mesma lógica por baixo: é outro caso clássico de uma explicação sendo substituída por outra mais bem sustentada em evidência, não por autoridade. Nessa aula, não surgiu nenhuma dúvida sobre ele — mas ele está ali, no mesmo tema, por um motivo coerente.
As perguntas que a turma fez sozinha
Depois da explicação sobre o ciclo da água, vieram duas perguntas que eu não tinha planejado.
Um aluno quis saber como o gelo pode cair do céu como chuva — o granizo. Expliquei que, dentro de nuvens de tempestade, correntes de ar ascendentes carregam gotículas de água para altitudes onde a temperatura já está abaixo de zero; elas congelam, e o granizo cresce em camadas conforme sobe e desce dentro da nuvem antes de cair (Olhar Digital).
Outro perguntou por que algumas regiões do Brasil têm tão pouca chuva. Expliquei que o Brasil não tem, a rigor, regiões verdadeiramente áridas — existe o semiárido, concentrado no sertão nordestino e no norte de Minas Gerais, com chuva escassa e irregular. Os fatores por trás disso são vários ao mesmo tempo: o deslocamento da Zona de Convergência Intertropical, que em certos meses intensifica o ar descendente sobre o Nordeste; o relevo da região; a influência dos oceanos e do El Niño; e uma evaporação alta combinada com solo raso. A pesquisa confirma a ordem de grandeza dessa explicação — fontes acadêmicas de climatologia citam entre 400 e 600 mm de chuva por ano no sertão nordestino, contra mais de 1.500 mm no litoral leste da mesma região (Revista Brasileira de Climatologia/UFPR) — é essa combinação de fatores, não “falta de chuva” genérica, que explica a vegetação adaptada da Caatinga.
As duas perguntas saíram do território da Física e entraram no da Geografia, e os próprios alunos perceberam isso — comentaram que já tinham visto esses temas antes, em outras aulas. Essa integração entre disciplinas no ensino de clima é reconhecida como boa prática pedagógica, ainda que pouco comum na prática escolar do dia a dia.
O que fica
O ponto de partida desta aula não foi corrigir uma “resposta errada”. Foi perceber que a resposta “errada” já continha a resposta certa dentro dela — os mesmos alunos que disseram “obra de São Pedro” sabiam o ciclo da água. O trabalho do professor, nesse caso, não foi ensinar do zero. Foi nomear, com clareza e sem confronto, uma distinção que os alunos já operavam na prática, mesmo sem ter as palavras para isso.
Dado original
Turma de Etapa 1 do EJA, 10 alunos presentes, CED Lago Norte, julho de 2026. Pergunta aplicada: 'o que é a chuva?'. Dos 10 presentes, 3 verbalizaram resposta: 2 deram explicação religiosa ('obra de São Pedro', em tom descontraído) e, ao mesmo tempo, demonstraram conhecer o ciclo da água; 1 aluno citou diretamente o ciclo da água. Os demais 7 não se manifestaram verbalmente. Nenhum dos que participaram demonstrou desconforto na classificação entre explicação mítica e científica. Dúvidas espontâneas: um aluno perguntou sobre o granizo, outro sobre por que algumas regiões do Brasil têm pouquíssima chuva.
Estudo de caso
Aula sobre o Tema 1 da apostila do EJA, aberta com a pergunta 'o que é a chuva?'. Dos 10 alunos presentes, 3 responderam — 2 com explicação religiosa e conhecimento simultâneo do ciclo da água, 1 apenas com o ciclo da água. A condução foi feita sem confronto entre fé e ciência. Duas dúvidas espontâneas surgiram: sobre a formação do granizo e sobre as regiões semiáridas do Brasil, ambas respondidas tecnicamente pelo professor.
Resultado: Nenhum dos alunos que participaram demonstrou desconforto na classificação entre explicação mítica e científica, e todos mantiveram o interesse. As duas dúvidas espontâneas (granizo e semiárido) levaram a turma a associar o tema com conteúdos de Geografia já vistos anteriormente — indicando conexão interdisciplinar percebida pelos próprios alunos, não só planejada pelo professor.
Fontes
- https://criticanarede.com/cien_demarcacao.html (acesso em 2026-09-29)
- https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/brasil/dia-de-sao-pedro-veja-como-cultura-popular-explica-mito-sobre-chuvas/ (acesso em 2026-09-29)
- https://olhardigital.com.br/2025/03/18/ciencia-e-espaco/o-que-causa-o-granizo-entenda-como-as-pedras-de-gelo-se-formam/ (acesso em 2026-09-29)
- https://revistas.ufpr.br/revistaabclima/article/download/42091/29394 (acesso em 2026-09-29)
- https://www.institutoclaro.org.br/educacao/nossas-novidades/reportagens/crencas-populares-podem-ser-trabalhadas-pelo-olhar-cientifico-no-ensino-de-ciencias/ (acesso em 2026-09-29)
- https://www.researchgate.net/publication/315515412_O_SABER_POPULAR_E_O_ENSINO_DE_CIENCIAS_UMA_POSSIBILIDADE_DE_INVESTIGACAO_CIENTIFICA_NA_EDUCACAO_DE_JOVENS_E_ADULTOS (acesso em 2026-09-29)
Sobre o autor
Professor de Física no EJA em Brasília/DF, com experiência também em reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil.