Xícara de chá fumegante, com vapor visível subindo
Foto: terri_bateman / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

metodologias pedagógicas

"A água fria esfria a água quente?" — desfazendo uma concepção errônea sobre fluxo de calor no EJA

Por Gilson Dutra Borges · Graduado em Física pela Universidade Federal de Uberlândia (2010). Professor de Física do EJA no Centro Educacional Lago Norte, em Brasília/DF. · 2026-09-27

Oito de dez alunos, com convicção total, me disseram que a água fria é que esfria a água quente.

Não foi chute. Foi debate. A pergunta era simples: numa mistura de água quente com água fria, quem transfere energia para quem? Na 2ª etapa do EJA, no Centro Educacional Lago Norte, em Brasília/DF, a resposta majoritária veio rápido e sem hesitação — é o frio que “passa” para o quente, esfriando-o.

Um erro que a própria ciência já cometeu

Antes de qualquer correção, vale um contexto: essa não é uma ideia bizarra que só essa turma teria. É uma das concepções alternativas mais documentadas na literatura de ensino de física — a crença de que “um corpo com calor pode transferir calor, e um corpo frio pode transferir frio”, como se calor e frio fossem duas substâncias simétricas fluindo em direções opostas (SciELO/RBEF).

Há até um paralelo histórico curioso. Até meados do século XIX, a própria ciência oficial também tratava o calor como uma substância fluida — o “calórico”, invisível e inodoro, que se transferia entre os corpos. A teoria só foi abandonada com os experimentos de James Prescott Joule, por volta de 1840 (Caderno Brasileiro de Ensino de Física). Os cientistas da época não erraram achando que o calor “flui” — erraram, historicamente, em outros detalhes. Meus alunos erram numa coisa mais específica: a direção do fluxo. Fisicamente, “frio” nem é uma grandeza própria — é a ausência relativa de energia térmica, do mesmo jeito que escuridão é ausência de luz, não uma coisa que existe por si só. O calor sempre flui do corpo de maior temperatura para o de menor, nunca o contrário, a não ser que se realize trabalho — é o que uma geladeira faz, gastando energia para isso (Segunda Lei da Termodinâmica).

Por que não corrigi de cara

Poderia ter simplesmente dito: “não, está errado, é o contrário”. Não fiz isso — e essa escolha também tem respaldo.

A teoria da mudança conceitual, formulada por Posner, Strike, Hewson e Gertzog em 1982 e ainda uma das referências mais usadas em pesquisa de ensino de ciências, descreve por que concepções arraigadas não cedem a uma correção direta: para que o aluno abandone uma ideia prévia, a nova explicação precisa parecer inteligível, plausível e útil — e isso raramente acontece de uma vez só. O padrão é gradual: o estudante tende a manter boa parte da concepção antiga enquanto incorpora, aos poucos, elementos da nova (resumo da teoria de Posner et al.). Correção direta tende a gerar, na melhor das hipóteses, uma concordância de fachada — o aluno repete a resposta certa na prova e volta à intuição errada na vida real.

Voltei à definição: temperatura é a intensidade do movimento das partículas. Quanto mais agitadas, mais alta a temperatura. E daí usei uma imagem concreta — o jogo de sinuca. Numa tacada, são as bolas em movimento que transferem energia às bolas paradas; a bola parada nunca “manda” energia de volta para a que está se movendo. É o mesmo princípio de qualquer colisão quase elástica (A Física das Colisões): quem está agitado transfere agitação a quem está parado, nunca o inverso.

O que avançou, e o que não posso afirmar que avançou

A analogia da sinuca destravou parte da discussão — os alunos conseguiram visualizar por que faz sentido que sejam as partículas mais agitadas (da água quente) transferindo movimento às mais paradas (da água fria), e não o contrário.

Não vou dizer que a concepção foi corrigida ali, de uma vez. Não tenho esse dado, e a própria teoria de mudança conceitual sugere que seria estranho se tivesse sido: uma ideia defendida com essa convicção, por 80% da turma, não costuma ceder numa única aula. O que registro é que a discussão avançou — e que esse é um padrão que já vejo se repetir com outras concepções fortemente arraigadas: elas pedem repetição, comparação, tempo. Não pedem só a definição certa dita uma vez.

Se antes eu apresentava só a definição de temperatura e seguia em frente, hoje sei que essa é a parte mais fácil da aula. A parte difícil é planejar para voltar ao mesmo conceito, de ângulos diferentes, mais de uma vez.

Dado original

Turma da 2ª etapa do EJA, Centro Educacional Lago Norte, Brasília/DF, 10 alunos, aula sobre fluxo de calor. Pergunta aplicada: ao misturar água quente com água fria, é o corpo mais quente que transfere energia para o mais frio, ou o contrário? Resultado: 8 de 10 alunos (80%) responderam que é a água fria que esfria a água quente — a concepção fisicamente incorreta. A resposta foi dada com convicção e naturalidade, gerando debate espontâneo entre os alunos e o professor, sem hesitação ou dúvida aparente.

Estudo de caso

Ao propor a pergunta sobre transferência de energia entre água quente e fria, 8 dos 10 alunos responderam com convicção que é a água fria que esfria a água quente, gerando defesas verbais espontâneas da posição. Para corrigir, o professor retomou a definição de temperatura (intensidade do movimento das partículas) e usou a analogia do jogo de sinuca: são as bolas em movimento que transferem energia às bolas paradas, nunca o contrário.

Resultado: A discussão avançou após a analogia da sinuca, mas sem indicação de que a correção tenha sido assimilada de forma imediata ou definitiva por todos os alunos. Não houve medição formal — o resultado observado reforça um padrão já visto em outras aulas do professor: correção de concepção prévia fortemente convicta exige tempo e repetição de analogias, não a simples apresentação da definição física correta.

Fontes

Sobre o autor

Professor de Física no EJA em Brasília/DF, já lecionou também no CESAS e no GISNO, além de reforço de Matemática, Física e Análise Estrutural para estudantes de Engenharia Civil no curso híbrido do IESB.